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IAs generativas desafiam setor educacional a repensar formas de ensinar e aprender

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Especialistas discutem como a inteligência artificial pode transformar práticas pedagógicas, avaliações e a construção do conhecimento em sala de aula.

Alexandre Back
30/09/2026 – 10h32min

Uso de assistente virtual de estudos em smartphone

Foto: Foto: Magnific / Edição Agência

As inteligências artificiais (IAs) generativas já fazem parte da rotina das salas de aula e estão mudando a relação entre professores, estudantes e conhecimento. Capazes de produzir textos, vídeos, áudios e códigos a partir de comandos dos usuários, essas ferramentas ampliam as possibilidades de ensino, mas também trazem novos desafios relacionados à autoria, ao pensamento crítico, à avaliação e ao uso responsável da tecnologia.

O impacto das IAs na educação foi um dos temas discutidos na última semana, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), durante o 7º Congresso Internacional da Rede de Educação OnLIFE (RIEOnLIFE). O evento reuniu pesquisadores e profissionais para discutir os efeitos da inteligência artificial e das tecnologias digitais sobre as formas de ensinar, aprender e produzir conhecimento.

Novos papéis em sala de aula

Para Eliane Schlemmer, que preside a RIEOnLIFE, a discussão já não se resume a decidir se os estudantes devem ou não utilizar inteligência artificial. O desafio, segundo ela, é compreender como professores e alunos podem utilizar a tecnologia pedagogicamente, quais competências precisam desenvolver e quais limites devem ser estabelecidos.

Eliane SchlemmerFoto: Acervo pessoal ALESC

“Embora não seja nova, tendo surgido na década de 1950, a IA se popularizou por volta de 2022, tendo um desenvolvimento muito rápido e intenso desde então, e não tem como a educação ficar alheia a isso. E, uma vez que a gente fala de uma ação que se desenvolve ligada, conectada na vida, que é o que propõe o paradigma da educação OnLife, a gente precisa compreender essa nova tecnologia, quais são as potencialidades que ela apresenta para a educação, quais são os desafios e como ela nos obriga a olhar para os processos de ensino e aprendizagem que a gente desenvolve.”

Eliane SchlemmerPresidente da Rede de Educação OnLIFE (RIEOnLIFE)

A pesquisadora, que possui pós-doutorado em Educação, com foco em inovação e cultura híbrida e multimodal, considera que a IA deve ser compreendida como uma forma de inteligência, de natureza diferente da humana. Nesse cenário, caberia ao professor orientar os estudantes sobre como interagir com essas ferramentas e utilizá-las para alcançar os resultados desejados.

 “Historicamente cabia ao professor fazer as perguntas e ao aluno respondê-las. Agora o aluno também precisa saber fazer boas perguntas, elaborar um bom prompt, pois isso é necessário para que a inteligência artificial generativa ajude-o a dar forma àquilo que quer saber.”

Segundo Eliane, a inteligência artificial pode contribuir para a produção de conhecimento, mas a avaliação das informações geradas continua sendo uma responsabilidade humana. Para ela, a expansão dessas ferramentas reforça a importância do conhecimento e da capacidade de análise crítica.

“Eu acho que tudo passa justamente por educar para o uso da inteligência artificial, discutindo suas possibilidades, potencialidades e também os riscos, como os vieses dos algoritmos. O conhecimento se tornou mais importante do que nunca, porque é preciso ter criticidade para avaliar aquilo que a IA apresenta e verificar se faz sentido dentro daquilo que você pretende desenvolver. Então, nunca foi tão necessário exercer o discernimento e a capacidade humana de analisar criticamente.”

Eliane SchlemmerPresidente da Rede de Educação OnLIFE (RIEOnLIFE)

Construção do conhecimento

O professor João Velasques Paladini, que participou do painel sobre a inteligência artificial na educação pública brasileira, observou que a incorporação dessas tecnologias nas escolas aconteceu primeiro pelos estudantes, o que gerou desafios para o desenvolvimento das práticas pedagógicas utilizadas até então.

Nesse sentido, Paladini, que possui doutorado em educação e ministra aulas para turmas dos ensinos fundamental e médio, defendeu que os professores se adaptem à nova realidade das salas de aula, buscando o aperfeiçoamento necessário para utilizar as IAs como potencializadoras do processo de aprendizagem.

“A inteligência artificial já faz parte da realidade e estará cada vez mais presente na profissão docente. Por isso, quanto antes os professores se apropriarem dessa tecnologia, mais fácil será incorporá-la às práticas pedagógicas. Para isso, são importantes as formações e a participação em eventos que permitam aos docentes conhecer e utilizar essas ferramentas com mais segurança.”

Para Carolina Müller, que possui doutorado na área de linguística aplicada e atualmente ministra cursos voltados ao uso de tecnologias digitais em sala de aula, a principal contribuição das IAs será fazer com que os estudantes não somente busquem os conhecimentos de que necessitam, mas que aprendam a construí-los.

“Não dá mais para o professor, por exemplo, pedir que o aluno faça uma pesquisa sobre um determinado assunto sem apresentar uma questão que o leve à problematização. Porque essa problematização é que vai fazê-lo usar a IA de forma consciente. É preciso, portanto, ajudá-lo a usar a inteligência artificial para construir conhecimento e aprender com ela, e não apenas sobre ela.”

Carolina também fez questão de afastar o medo de quem pensa que a IA possa constituir uma ameaça à profissão de professor.

“Eu não sei como será o futuro, mas, mesmo com todas as mudanças na educação, as IAs certamente não vão substituir a necessidade da presença de um professor em sala de aula.”

Eliane SchlemmerPresidente da Rede de Educação OnLIFE (RIEOnLIFE)

IA também chega à legislação

Além do debate acadêmico e pedagógico, o uso da inteligência artificial também começa a ganhar espaço no campo normativo. No Brasil, diferentes iniciativas vêm sendo implementadas ou discutidas para estabelecer diretrizes para o desenvolvimento e a utilização da tecnologia, inclusive na educação.

Ainda no ano de 2021, o governo federal publicou, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (Ebia), que traça os objetivos para pesquisa, inovação e uso ético da tecnologia no país.

Já em âmbito estadual, tramita na Assembleia Legislativa o projeto de lei (PL) 859/2025, que trata da criação de uma política estadual de educação digital. Entre outros pontos, a iniciativa prevê a inclusão nos currículos voltados à educação básica de conteúdos sobre o uso da inteligência artificial e a capacitação de profissionais da educação para o uso pedagógico e ético desta ferramenta, além da segurança da informação e proteção de dados.

O texto encontra-se em análise na Comissão de Constituição de Justiça, onde aguarda votação do parecer apresentado pelo relator, pela admissibilidade. Se aprovado, o texto seguirá em análise nas demais comissões de mérito.

Normativas: Âmbito Federal

Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (Ebia)

Publicada em 2021 pelo governo federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a iniciativa traça os objetivos para pesquisa, inovação e uso ético da tecnologia no país.

Normativas: Âmbito Estadual

Projeto de Lei (PL) 859/2025

Em tramitação na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), o projeto trata da criação de uma política estadual de educação digital. A iniciativa prevê a inclusão nos currículos da educação básica de conteúdos sobre o uso da inteligência artificial, a capacitação de profissionais da educação para o uso pedagógico e ético desta ferramenta, além do fortalecimento da segurança da informação e proteção de dados.

Status de Tramitação (PL 859/2025)

Em análise

O texto encontra-se atualmente em análise na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ), onde aguarda votação do parecer pela admissibilidade apresentado pelo relator. Se aprovado, seguirá para análise nas demais comissões de mérito da Casa.‹›


ALESC EXPLICA

Como a inteligência artificial está sendo utilizada na educação?

As IAs generativas são capazes de produzir textos, vídeos, áudios e códigos a partir de comandos dos usuários e já fazem parte da rotina das salas de aula.

Qual é o papel do professor diante das IAs generativas?

Os especialistas ouvidos na reportagem defendem que professores orientem os estudantes sobre como interagir com essas ferramentas, avaliar seus resultados e utilizá-las na construção do conhecimento.

Por que saber fazer perguntas se tornou importante com a inteligência artificial?

Segundo Eliane Schlemmer, além de responder às perguntas feitas pelos professores, os estudantes precisam aprender a formular boas perguntas e elaborar bons prompts para orientar as ferramentas naquilo que desejam saber.

A inteligência artificial pode substituir o professor?

Carolina Müller afirma não saber como será o futuro, mas avalia que, mesmo diante das mudanças provocadas pelas IAs, a presença do professor em sala de aula continuará sendo necessária.

Existe proposta sobre inteligência artificial na educação em tramitação na Alesc?

Sim. Segundo a matéria, o PL 859/2025 trata da criação de uma política estadual de educação digital e prevê, entre outros pontos, conteúdos sobre inteligência artificial na educação básica e capacitação dos profissionais para o uso pedagógico e ético da tecnologia.

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